O Vaticano II ensina que, ao determinar o tamanho da família, os pais devem “atenciosamente levar em consideração seu próprio bem-estar, bem como o de seus filhos já nascidos e daqueles que o futuro poderá trazer”. Eles devem “calcular as condições materiais e espirituais, e também seu estado de vida. Finalmente, eles devem consultar os interesses do grupo familiar, da sociedade, e da própria Igreja”. A respeito da questão de limitar o tamanho da família, a Humanae Vitae ensina que “motivos razoáveis para espaçar os nascimentos” podem surgir “das condições físicas ou psicológicas do marido ou da esposa, ou de circunstâncias externas”.

A orientação da Igreja é propositalmente ampla, tolerante. Seguindo a orientação da Igreja, é dever de cada casal aplicar estes princípios básicos em suas situações particulares. Por essa razão, a ideia surpreendentemente difundida de que um casal precisa obter “permissão” de um padre para espaçar gravidez, não é somente falsa, mas evidencia uma séria confusão acerca da natureza da responsabilidade moral. Se um casal está em dúvida quanto às suas razões, é certamente recomendável procurar um sábio aconselhamento. Mas a Igreja coloca a responsabilidade da decisão, de forma muito justa, nos ombros do casal. Se os esposos escolhem limitar o tamanho da família, o Catecismo somente ensina que “é responsabilidade deles ter a certeza de que seu desejo não é motivado por egoísmo, mas está em conformidade com a generosidade que é apropriada à paternidade responsável”.

Aqui vemos ainda outra forma de egoísmo sutil e menos discutido que conflita com a paternidade responsável. Considere um casal que teve vários filhos muito próximos entre si. Os pais reconheciam corretamente cada filho como uma graça divina e faziam tudo que podiam para amá-los e cuidar deles. Entretanto, a mãe, emocionalmente esgotada desde o terceiro filho, desejava um espaçamento maior entre os bebês desde então. Isto trouxe à luz que a razão pela qual eles não espaçaram seus filhos foi porque o marido egoisticamente não quis (ou não conseguia) se abster.

Dessa forma, o que, visto superficialmente, pode passar como uma resposta generosa ao ensinamento da Igreja, quando olhado mais de perto, na verdade, mostra uma falha na vivência do ensinamento da Igreja. A questão é que, no intuito de que a paternidade seja “responsável”, a decisão de evitar a união sexual durante o período fértil ou a decisão de se entregar à união sexual durante o período fértil não pode ser motivada pelo egoísmo.

A seguinte analogia pode ajudar a resumir não somente a importante diferença moral entre contracepção e P.F.N., mas também a necessária atitude moral que deve acompanhar o uso responsável do P.F.N.

Nossa atitude natural para com os outros, deve ser aquela que deseja a integridade da vida e da saúde dos outros. Todavia, as circunstâncias podem nos levar a desejar honradamente que Deus chame alguém para a Vida Eterna. Suponha que um parente idoso esteja sofrendo em excesso pela idade e pelas moléstias que normalmente a acompanham. Você pode ter o nobre desejo de que ele descanse na morte. Igualmente, uma atitude natural do casal deve ser a de desejar filhos. As circunstâncias, no entanto, podem levar um casal a ter o nobre desejo de espaçar uma gravidez.

No caso do parente idoso, uma coisa é sofrer junto com ele durante sua espera paciente por sua morte natural. Aí não haverá nada de censurável na atitude de ser grato à Deus por sua morte, quando ela ocorrer. Mas é uma coisa completamente diferente tomar o poder da vida em suas próprias mãos e matá-lo só porque você não consegue suportar seus sofrimentos.

Da mesma forma, para o casal que possui o nobre desejo de espaçar a gravidez, não há nada censurável em esperar pacientemente pelo período natural de infertilidade, ou mesmo de ser grato a Deus por ter concedido que esse período de infertilidade existisse. Mas uma coisa completamente diferente é o casal tomar o poder da vida em suas próprias mãos e se fazerem artificialmente estéreis porque não conseguem suportar a abstinência.

Por outro lado, é também possível que o seu desejo de ver teu parente morto possa ser maldoso. Você pode ter algum tipo de ódio por ele que pode levar você a desejar sua morte. Você não pode matá-lo, no entanto ele pode morrer de causas naturais. Se contudo, se você se alegrar com sua morte, isto seria censurável. Da mesma forma o casal que usa o P.F.N. com um desejo maldoso de evitar um filho. Sua alegria no período infértil também seria censurável, porque é motivada por uma mentalidade egoísta de rejeitar filhos.

O bem equilibrado ensinamento da Igreja a respeito da paternidade responsável é um presente divino, dado para proteger o supremo valor deste sinal. Desequilíbrios nos dois extremos devem ser evitados, se quisermos nos manter fiéis ao sinal do amor matrimonial e deixar sempre clara a proclamação do mistério divino no mundo.