Em nossa Comunidade, atualmente, estamos vivendo um tempo novo. Muitas famílias novas estão se formando. Temos casais noivos, recém-casados, mulheres grávidas e muitas recentes mães de primeira viagem. Diante dessa realidade, resolvi falar um pouco sobre a paternidade responsável na visão da nossa Igreja.

No meio de nós, existe ainda uma grande confusão no que se refere ao ensinamento da Igreja sobre paternidade responsável. E, provavelmente, o principal problema seja uma compreensão deficiente acerca da diferença entre contracepção e abstinência periódica ou “planejamento familiar natural” (P.F.N.). Se, por um lado, a contracepção NUNCA é compatível com uma visão autêntica de paternidade responsável, por outro, a Igreja ensina que o P.F.N. – dada a disposição adequada dos esposos – pode ser.

Como sempre é o caso, pensamentos errôneos surgem de ambos os lados. O equívoco em distinguir entre contracepção e P.F.N. ocorre não só entre os que tendem a justificar a contracepção, como também entre aqueles que pensam que qualquer tentativa de evitar ou espaçar os filhos seja um sinal de falta de fé ou de confiança em Deu. Há ainda um outro grupo de pessoas que aceitam a legitimidade do P.F.N. desde que exista uma razão séria o bastante para usá-lo.

Se quiséssemos extinguir todas as questões envolvidas, não caberia em um livro, assim, o objetivo desta formação é delinear algumas das demandas comuns no que diz respeito à paternidade responsável, esperando trazer alguma sensatez à discussão. Comecemos apresentando a lógica interna da ética sexual da Igreja.

Deus criou-nos homem e mulher e chamou-nos a “sermos fecundos e nos multiplicarmos” como um sinal de seu próprio mistério de amor vivificante no mundo. Além disso, se quisermos abranger esta maravilhosa e sacramental visão da nossa sexualidade, precisamos também abraçar a responsabilidade inerente a ela.

João Paulo II diz que nós “podemos falar sobre moral bem ou mal” no relacionamento sexual “de acordo com o quanto ele possui… ou não o caráter de verdadeiro sinal”. Resumindo, nós precisamos fazer a seguinte pergunta: Seria um determinado comportamento, um autêntico sinal do amor divino ou não?

A união sexual possui uma “linguagem profética” porque ela expressa o próprio mistério de Deus. Mas o Papa acrescenta que precisamos ser cuidadosos em distinguir entre verdadeiros e falsos profetas. Se somos capazes de dizer a verdade com o corpo, também somos capazes de falar contra esta verdade.

Para serem “fiéis ao sinal”, os esposos precisam falar como Cristo fala. Primeiro, Cristo dá seu corpo livremente (“Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar”, Jo 10,18). Ele dá seu corpo sem reservas (“até o extremo os amou”, Jo 13,1). Ele dá seu corpo fielmente (“Eu estarei sempre convosco”, Mt 28,20). E ele dá seu corpo fecundamente (“Eu vim para que tenham vida”, Jo 10,10).

É com este amor que o casal se compromete no matrimônio. Diante do altar, o padre ou diácono pergunta a eles: “Vocês vieram aqui livremente e sem reservas para darem-se um ao outro em casamento? Vocês prometem ser fiéis até a morte? Vocês prometem receber com amor os filhos que Deus vos der?” Então, concordando em amar como Cristo ama, o casal é chamado a encarnar esse amor em sua relação sexual. Em outras palavras, a união sexual é destinada a ser o lugar onde as palavras dos votos matrimoniais se encarnam, ou seja, “se tornam carne”.

Seria saudável um casamento onde os esposos, ao invés de encarnar seus votos, fossem regularmente infiéis aos mesmos, regularmente falando contra eles? Pois bem, é aqui mora a essência do mal da contracepção. O desejo de espaçar uma gravidez (por um prazo definido ou indefinido, ou ainda, até que não se tenha mais fertilidade, quando existem razões suficientes para isso) não é o que corrompe o comportamento dos esposos. O que corrompe o sexo que se utiliza de métodos contraceptivos é a escolha voluntária de tornar estéril uma união potencialmente fértil. Isto torna o sinal do amor divino um “contra-sinal”.

O amor divino é generoso; ele gera. E é por isso e para isso que Deus nos deu genitais – para capacitar os esposos a refletir em seus corpos (a “encarnar”) uma versão terrena de seu amor livre, total, fiel e fecundo. Quando os esposos escolhem usar contracepção – isto é, quando eles adulteram voluntariamente o potencial criativo de sua união – eles se tornam “falsos profetas”. Seu ato sexual continua “falando”, mas ele nega o vivificante amor de Deus.

O conselho de São João vem à mente: Cuidado com aqueles “falsos profetas” que negam a encarnação (cf. 1 Jo 4,1-3). Não se engane – a conclusão lógica é que a contracepção implica o consentimento de uma visão de mundo contrária ao mistério do Amor Encarnado, ou seja, o mistério de Cristo.

João Paulo II explica: “Como espírito encarnado, que é uma alma que expressa a si mesma em um corpo e um corpo movido por um espírito imortal, o homem é chamado a amar em sua totalidade unificada. O amor inclui o corpo humano, e o corpo é participante do amor espiritual”.

A relação que usa contracepção, somente pode expressar amor pela outra pessoa, se ela for uma pessoa des-encorporada. Este não é um amor pela outra pessoa condizente com a unidade entre corpo e alma desejada por Deus. Dessa forma, atacando o potencial procriativo do ato sexual, a relação que usa contracepção “falha também na tentativa de ser um ato de amor”.

Então, respeitar o “amor encarnado” significa que os casais devem ter todos os filhos que o acaso proporcionar? Não. Ao chamar os casais para um amor responsável, a Igreja os chama também para uma paternidade responsável.

Priscilla Athayde – Consagrada e Formadora Geral da Comunidade Fraterno Amor